O Caminho até a Órbita
Os satélites revolucionaram a maneira como observamos e interagimos com o nosso planeta, tornando-se indispensáveis para uma variedade de serviços, como previsão do tempo, monitoramento ambiental e comunicação. Porém, como se dá o processo para que um satélite brasileiro chegue à órbita? A resposta, segundo especialistas, começa muito antes do seu lançamento.
No Brasil, essa jornada é coordenada pela Agência Espacial Brasileira (AEB), com a execução técnica sendo feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ambos vinculados ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Os projetos de satélites surgem a partir de demandas específicas de utilização. “É fundamental que os usuários do serviço do satélite deixem claro quais são suas expectativas em relação ao desempenho”, explica Rodrigo Leonardi, diretor de Gestão de Portfólio da AEB. Após essa fase inicial, o projeto passa por uma avaliação técnica, considerando sua viabilidade, aderência ao programa e a disponibilidade de recursos.
Conforme aponta Leonardi, a maioria das missões brasileiras se origina dentro do sistema científico nacional. “A grande parte dos satélites desenvolvidos é iniciada em um Instituto de Ciência e Tecnologia brasileiro, como o Inpe”, detalha.
Da Concepção ao Lançamento
Com o projeto finalizado, inicia-se a fase de envio do satélite ao espaço. Atualmente, o Brasil utiliza lançadores internacionais, que são contratados com base nas especificidades de cada missão. “A escolha depende da órbita desejada: se é uma órbita baixa, conhecida como LEO, ou uma geoestacionária, que mantém o satélite em uma posição fixa em relação à Terra”, explica Leonardi. Assim, cada satélite requer veículos adequados para o tipo de lançamento desejado.
Paralelamente, o Brasil avança em suas capacidades de acesso ao espaço. Um exemplo é o Microlançador Brasileiro (MLBR), em desenvolvimento por um arranjo produtivo de empresas do setor tecnológico. Em um teste recente, realizado no início de 2026, um ensaio hidrostático do motor do primeiro estágio apresentou resultados positivos, simulando as condições que o veículo enfrentará durante o lançamento.
Esse projeto é promovido a partir de uma chamada pública da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao MCTI, em parceria com a AEB e contando com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Além disso, o Centro de Lançamento de Alcântara, localizado no Maranhão, tem passado por melhorias para suportar operações tanto nacionais quanto internacionais. Sua localização, próxima à linha do Equador, oferece vantagens técnicas importantes para lançamentos, como a economia de combustível.
Transporte e Integração do Satélite
Uma vez definido o lançamento, o satélite é transportado para a base de lançamento. “Esse transporte é feito com extremo cuidado, geralmente por meio de aviões”, esclarece Antônio Bertachini, chefe da Divisão de Pós-Graduação do Inpe. Na base, ele é integrado ao foguete, que deve ser capaz de suportar as vibrações intensas da decolagem.
A etapa de lançamento é crucial. “O foguete fornece a velocidade inicial, levando o satélite até a altura necessária para sua injeção em órbita, momento em que ele se separa do veículo”, detalha Bertachini. Após essa separação, o satélite mantém sua trajetória ao redor da Terra devido ao equilíbrio entre as forças gravitacionais.
O Equilíbrio Orbital e os Desafios
Os satélites permanecem em órbita por conta do impulso recebido no lançamento. A injeção em órbita, segundo o pesquisador, ocorre quando o satélite é lançado a mais de 28.000 km/h, uma velocidade alta o suficiente para evitar que ele caia, mas não sai da influência gravitacional da Terra.
“Imagine que você joga uma pedra: se você a arremessar com mais força, ela vai mais longe. Agora, se você conseguisse lançá-la a uma velocidade de cerca de 11 quilômetros por segundo, ela começaria a cair em direção à Terra, mas como o planeta é esférico, ela continuaria a orbitar”, explica Bertachini. Isso significa que o satélite está em uma queda contínua ao redor da Terra, sendo puxado pela gravidade, mas com velocidade suficiente para evitar que colida com a superfície.
Entretanto, nem todos os satélites têm o mesmo comportamento em órbita. Alguns, como os de observação, percorrem diversas regiões do planeta, enquanto os de telecomunicações permanecem em órbita geoestacionária, a cerca de 36 mil quilômetros de altitude. Nessas órbitas, eles acompanham a rotação da Terra, permanecendo fixos para um observador no solo.
Contudo, em órbitas mais baixas, a interação com a atmosfera pode reduzir a velocidade dos satélites ao longo do tempo. “Se um satélite estiver em uma órbita baixa, ele vai interagir com a atmosfera e perder energia, podendo reentrar”, alerta Bertachini. Para mitigar isso, muitos satélites são equipados com sistemas de propulsão, que permitem ajustes na trajetória e altitude.
Operação e Monitoramento em Órbita
Após o lançamento, o satélite é monitorado continuamente. O Inpe realiza o acompanhamento por meio de antenas em solo e do Centro de Rastreio e Controle de Satélites (CRC), localizado em São José dos Campos (SP). “Os sinais enviados pelos satélites são captados e analisados para calcular a órbita e prever suas passagens”, explica Bertachini.
Esse monitoramento não é isento de desafios. O próprio lançamento já é uma etapa delicada; falhas podem comprometer a missão. “Uma queima irregular ou um direcionamento de propulsão incorreto podem impedir que o satélite atinja a órbita desejada”, destaca.
Após a inserção em órbita, outro risco é o de colisões com detritos espaciais. “Ocorrem avisos de risco de colisão e, muitas vezes, são necessárias manobras para evitar isso”, explica.
No decorrer da missão, o satélite coleta dados que são transmitidos à Terra e processados por equipes especializadas. “Essas informações são enviadas para o centro de controle e, posteriormente, tratadas conforme a aplicação, seja para monitoramento ambiental, dados meteorológicos ou investigações científicas”, afirma Bertachini. Todo esse processo pode ser demorado; projetos completos costumam levar de dois a três anos, embora possa variar com a complexidade e o tamanho do satélite.
Esses sistemas são cruciais para oferecer informações estratégicas que ajudam na formulação de políticas públicas e na gestão territorial, refletindo a tradição e o domínio tecnológico do Brasil nessa área. A expectativa é ampliar ainda mais essa capacidade nos próximos anos, priorizando a produção de satélites para observação da Terra e telecomunicações, com novos projetos, como o Amazônia-1B, já em desenvolvimento, visando à continuidade do monitoramento ambiental com tecnologia aprimorada.
